domingo, 9 de agosto de 2015

Um milhão de brasileiros já ajudaram a linchar alguém

Brasil é o campeão de linchamentos, que mostram lado cruel de pessoas de bem

D
e uns dois anos para cá, o noticiário tem estado cheio de episódios de linchamento. Parece que todo dia tem um. Infelizmente, não só parece: o Brasil é, provavelmente, o país que mais lincha pessoas no mundo. Todos os dias, há pelo menos uma tentativa ou um linchamento consumado. Na última década, entre 1 milhão e 1,5 milhão de brasileiros participaram (como agressores) de um linchamento ou de uma tentativa.
Esses dados foram revelados no livro “Linchamentos: a justiça popular no Brasil”, lançado neste ano pelo sociólogo José de Souza Martins, professor emérito da Universidade de São Paulo. Ele pesquisou o tema pelos últimos 30 anos. O país não tipifica o crime de linchamento – que é enquadrado na lei como homicídio ou tentativa de homicídio –, e não há estatísticas oficiais sobre essa prática. Portanto, o livro de Martins pode ser considerado o maior documento sobre o assunto.
“Surrar é um componente forte da cultura brasileira. Crianças são surradas, maridos surram esposas.”
“Quem lincha não sabe o que está fazendo. É movido pela reação impulsiva contra alguém que cometeu injustiça contra pessoas inocentes – geralmente violência física. Surrar é um componente forte da cultura brasileira. Crianças são surradas, maridos surram esposas. Ainda hoje, crianças e adultos fazem o linchamento simbólico de Judas na malhação do Sábado de Aleluia”, declarou Martins à reportagem de O TEMPO.
Apesar de ser uma manifestação espontânea, os linchamentos costumam seguir uma espécie de “roteiro”: perseguição, apedrejamento, golpes de pauladas, socos e pontapés, mutilação e queimar a pessoa viva – nessa ordem.
Para Martins, a mutilação tem a ver com uma religiosidade comum do brasileiro. “Furar os olhos do linchado, coisa que tem acontecido com alguma frequência, é um modo de condená-lo à escuridão eterna. Esse morto jamais verá a luz da salvação”, diz.
Os linchadores, normalmente, são as consideradas “pessoas de bem”: pais e mães de família, trabalhadores, sem envolvimento com o crime. Muitas vezes, sem histórico de comportamento violento. O que os faz participar desse ato de barbárie é o apoio dos pares. “Um grupo propicia que tenhamos alguma referência externa que autorize nossa ação. Se eu tinha que decidir sozinho por cometer uma agressão a alguém e eu não consigo fazer isso, estando dentro de um grupo, eu não me sinto mais sozinho e cometo a agressão”, analisa o psicanalista Bernardo Micherif, doutorando em psicologia pela UFMG que estuda a violência.
Em um dos linchamentos relatados por José Martins em seu livro, ocorrido no Rio de Janeiro, uma senhora idosa precisou ser retirada à força de cima do corpo do rapaz que havia sido linchado. Ela segurava uma colher e tentava arrancar os olhos do corpo. Foi necessário levá-la a um hospital e medicá-la para que voltasse a si. “Quando há um fenômeno desses, em que as pessoas ultrapassam barreiras que elas consideravam impossíveis de serem transpassadas, isso gera transtornos psiquicamente. Para voltar desse momento de ruptura, será necessário um grau de contenção – que pode ir desde a simples presença de um policial no local até o uso de medicação mesmo”, afirma Micherif.



Fonte: JL/OTempo

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