quinta-feira, 12 de maio de 2016

60% dos políticos que votarão no impeachment respondem por crimes

Quase 60% dos políticos que votarão hoje no impeachment respondem por crimes, entre eles corrupção

Quase 60% dos senadores que votarão hoje o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff são acusados ou investigados por crimes diversos. Ao tomarem a palavra para proferir seu voto em plenário, no início da noite, 48 dos 81 parlamentares em exercício estarão ignorando os próprios delitos para decidir se a presidente, suspeita de praticar as chamadas “pedaladas fiscais”, deve ou não ser afastada do comando do país.

Os dados são do projeto Excelências, da ONG Transparência Brasil, e se assemelham ao percentual levantado na Câmara. Enquanto 58,9% dos deputados estão sob algum tipo de investigação, 59,3% dos senadores têm ocorrências na Justiça ou em Tribunais de Contas.
Para o professor de ciências políticas Manoel Santos, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o problema é sério e antigo. “Perdeu-se, há algum tempo, o mínimo de decoro com o cargo público. Agora, é óbvio que esse espetáculo que estamos assistindo de um processo sendo conduzido lado a lado por pessoas também envolvidas no mesmo problema coloca em xeque a ideia de legitimidade do sistema político como um todo”, avalia.

Assim como ocorreu na votação da Câmara, o parlamentar que conduzirá a votação no Senado, Renan Calheiros (PMDB–AL), também é alvo de investigações. Somente do seu partido, são 11 senadores sob suspeita, quase um quarto do total de investigados. Em segundo aparece o PSDB, com sete senadores, seguido pelo PT, com cinco.

Entre os crimes supostamente cometidos pelos senadores investigados estão lavagem de dinheiro, corrupção, improbidade administrativa, formação de quadrilha, abuso de poder e até mesmo crimes de responsabilidade – Dilma é acusada de cometer violações dessa natureza, na área fiscal.

Doutor em ciência política, o professor Paulo Roberto Figueira Leal, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), pondera que a cobertura que a imprensa internacional tem feito do momento político brasileiro ilustra o espanto com relação ao que está acontecendo no país: “O impeachment é um recurso extremo, e o parlamento resolveu tirar a presidente independentemente dos motivos. Na verdade, procurou-se um remendo para justificar uma decisão já tomada. E isso fica claro na própria votação da Câmara, em que era raro citar as pedaladas”.

O professor Manoel Santos acredita que parte considerável desse “mal” vem dos financiamentos de campanha: “Se ficar alguma lição de tudo isso é a necessidade imediata de se reformarem as instituições políticas. Além do financiamento, outras reformas precisam ser feitas. Ter um parlamento extremamente fragmentado, com um conjunto enorme de partidos, leva à formação de coalizões muito amplas. Não podemos ter um partido com um número ínfimo de votos criando problemas para a governabilidade, como tem acontecido”.

Perfil. O conservadorismo da atual composição do Congresso se reflete no perfil dos senadores em exercício. Com média de idade de 60,5 anos, 80% são homens brancos, e 29,6% fazem parte da bancada ruralista. “Isso representa o melhor parlamento que o dinheiro é capaz de comprar”, brinca Leal. “Mesmo que a gente possa supor que a Câmara e o Senado tenham legitimidade porque são o que saiu das urnas, o que saiu não pode ser desassociado da profunda assimetria no financiamento de campanhas”.

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