terça-feira, 21 de junho de 2016

Jovem 'se monta' de drag queen para divertir crianças com câncer no Piauí

Projeto 'Chandelly Kids' funciona há 10 meses em hospital de Teresina. Carreira chega a 4 anos e drag concilia trabalho na noite com projeto social
Chandelly Kidman tira um dia no mês para visitar crianças com câncer em hospital (foto: Mikael de Sousa/Arquivo)
Crianças, pais e profissionais de saúde participam de festa em hospital (Foto: Mikael de Sousa/Arquivo Pessoal)


Aos 24 anos, o jovem Dackson Mikael de Sousa Rodrigues, mostra que já enfrentou preconceitos, superou barreiras e hoje quebra paradigmas. Há quatro anos como Chandelly Kidman, a drag queen decidiu conciliar as performances nos palcos da noite, de eventos, confraternizações, com um projeto social no mínimo louvável. Mikael de Sousa, ou melhor, a Chandelly, anima crianças que fazem tratamento de câncer em um hospital do Piauí.
Esse projeto me dá um gás e me dá uma noção do que é o mundo humano. A gente vê e percebe o poder da gentileza. Me alimenta como pessoa, como artista. É uma troca de energias"
Chandelly Kidman, drag queen

"É um projeto de realização pessoal, que alimenta o meu ser e me faz mais humano. Particularmente, dos projetos que eu estou ligado, é o que mais gosto porque é um projeto social, diferente de qualquer outro projeto artístico já visto. E não está nem um pouco ligado à arte de ser drag queen, que trabalha na noite, em festas e baladas", disse.

Chandelly Kidman dedica um dia por mês para visitar crianças no Hospital São Marcos, clínica referência no tratamento de câncer no Piauí.

Durante as apresentações, a drag queen monta uma grande e divertida festa para as crianças. Além disso, pais, mães e profissionais de saúde que acompanham os pequenos no tratamento de saúde, se reúnem numa confraternização onde todos cantam e dançam.

"Esse projeto significa muito tanto para mim quanto para as crianças porque isso acaba sendo uma extensão do tratamento que elas fazem no hospital. Era um desejo pessoal e eu não tinha noção do quanto era importante. Estou fazendo parte da vida dessas crianças e de alguma forma ajudo no tratamento. Com o projeto, eu reflito mais sobre o mundo por conta do poder dessa sutiliza", contou.

A proposta do Chandelly Kids, segundo a mentora, é levar um ar mais festivo a um ambiente de hospital. No espaço onde acontecem as apresentações, a drag queen envolve ainda artistas convidados em um local onde é montada uma decoração temática. Desde que o projeto foi iniciado, já foram 10 apresentações.

"Tem também toda uma questão da quebra de paradigmas. Porque no imaginário das pessoas, o lugar de uma drag queen é na noite. A gente vive em um momento de caos em relação ao preconceito. E acho que quando eu levo uma drag para este ambiente, causa um questionamento político sobre LGBT, sobre gêneros. É preciso refletir", disse.

A vida pessoal
Poderia ser só mais uma história de quem é homossexual e enfrenta diariamente o preconceito. Mas para o bailarino Mikael de Sousa, que mora no bairro Dirceu, Zona Sudeste de Teresina, tudo não passou de uma prova de vida. Problemas de bulling na escola? "Não sofri muito com isso", disse ele. O perfil mais popular, engraçado, extrovertido e divertido de ser ajudou Mikael a tirar esse problema de letra.

"Eu não sofri bulling na escola porque sempre coincidia de eu estudar com as mesmas pessoas. E também era muito popular, o mais engraçado, o mais danado e o mais divertido. E isso atraia as pessoas ao meu lado", contou.
Eu tive que superar o preconceito com a família, tempo em que passei quase dois anos fora de casa. Hoje a minha família milita por mim"
Autor
Os conflitos interiores sobre ser ou não homossexual não fizeram parte da vida de Mikael até porque ele considera que esse momento de transição foi natural. O gostar de cores, e coisas do universo feminino como baton, saia, cabelos grandes o atraía.

"O meu maior desafio foi enfrentar a minha família porque eles não me aceitavam como gay, nem como drag queen", disse.

O processo mais delicado foi assumir para a família que era homossexual. Houve um tempo em que o jovem teve que sair de casa, porque a família não o aceitava.
Mikael diz que descoberta sexual aconteceu naturalmente (Foto: Mikael de Sousa/Arquivo Pessoal)
Chandelly Kidman ganhou em 2014 o título de melhor drag queen do Brasil (Foto: Reprodução/Instagram)


"Essa transição da descoberta da minha homossexualidade na adolescência foi bem pesada. Porque na época minha mãe não sabia o que era e não sabia como lidar com isso. E foi um choque. Até porque era algo que eles não tinham conhecimento, sobre a homossexualidade. Tinha várias perguntas que ela não conseguia responder. Ela ficou muito confusa, mas com o tempo tudo se resolveu", disse.

A carreira
O boom da carreira de Chandelly Kidman teve como ponto de partida a conquista do título de melhor drag do país que recebeu durante um dos concursos mais importantes do movimento artístico: o Brasilian Drag. A conquista veio em 2014 e desde lá Chandelly já se apresentou em festivais de danças e foi convidada para eventos em diversos estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Maranhão, Pará e na terra natal, o Piauí.

"Hoje eu procuro encontrar uma relação entre Mikael e a Chandelly. Mikael é bailarino, que trabalha com a dança contemporânea, dá aulas de danças para crianças e também dá aulas de drag queen. Já a Chandelly tem toda uma áurea de glamour, que entrou em um projeto social e também tem uma ligação muito forte com as crianças, mas os dois são diferentes, mas que podem se fundir e sair uma mistura boa", disse.

O ser drag e o movimento LGBT
Drag queen é um personagem criado por artistas performáticos que se travestem ou se fantasiam, usam roupas extravagantes e maquiagens fortes. Normalmente, as apresentações de uma drag queen acontecem na noite em boates, eventos particulares e confraternizações. "Não há associação às questões de gênero e qualquer um pode ser uma drag queen", disse Mikael.

"As minhas participações no movimento LGBT sempre foram individuais e tímidas. Era uma espécie de militância particular, desvinculada de qualquer grupo. Estudava sobre, debatia, mas sempre de forma individual. Depois que o nome da Chandelly ganhou espaço, foi que eu comecei a militar com os grupos e apoiar de forma mais pública e coletiva a causa", disse.
Fonte: JL/G1PI

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