terça-feira, 7 de junho de 2016

Lava Jato reabre escândalo do Governo FHC, que respinga em seu filho

Pedro Corrêa, do PP, relata compra de votos para aprovar emenda de reeleição em 1998. Cerveró cita esquema de propina na Petrobras durante Governo do ex-presidente tucano
Nos últimos dois anos a investigação da Lava Jato se concentrou nos crimes que ocorreram desde 2003, início dos Governos do PT. Mas, a força tarefa já tinha evidências que o esquema de desvio de propinas acontecia desde os anos 80, passando, portanto, pelo governo do tucano Fernando Henrique Cardoso. Em uma das delações recentes, do ex-diretor da Área Internacional da Petrobras Nestor Cerveró, são descritas negociatas dos tempos do ex-presidente tucano. Em janeiro vazamento de parte das declarações de Cerveró vieram a público: nos documentos ele afirmou que durante o final do Governo do presidente tucano a Petrobras negociou a compra da Perez Companc. Os diretores da empresa teriam dito a ele que "a propina paga a Gros [Francisco Gros, então presidente da estatal] foi de grande monta (100 milhões de dólares), razão pela qual certamente foi repassada para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e ao PSDB".

Esta semana tornou-se público outro trecho que compromete o ex-presidente. Cerveró também afirmou em seus depoimentos que fechou contratos com uma empresa ligada a um dos filhos de FHC, Paulo Henrique Cardoso, a PRS Participações. O negócio teria ocorrido entre 1999 e 2000, e a escolha da companhia sem licitação teria sido orientada pelo então presidente da estatal, Phillipe Reichstul. Cerveró não afirmou se o presidente tucano teve alguma relação com a indicação da PRS. O filho do ex-presidente negou conhecer a empresa e afirmou não ter conhecimento dos fatos narrados pelo delator.

Outra delação premiada feita no âmbito da operação Lava Jato desenterrou um dos maiores escândalos dos tempos de FHC: a suposta compra de apoio parlamentar para aprovar a emenda que permitiria sua reeleição em 1997. Foi o ex-deputado Pedro Corrêa (PP-PE) que ressuscitou o assunto. O pepista, que já foi condenado em primeira instância pelo juiz federal Sérgio Moro a mais de 20 anos de prisão, se referiu ao episódio como “um dos momentos mais espúrios” que presenciou em suas quase quatro décadas de atuação na Câmara.

Atualmente ele cumpre pena em regime semi-aberto por sua participação em outro escândalo, o mensalão. De acordo com o depoimento de Corrêa, à época houve um embate entre correligionários de FHC e aliados do então ex-prefeito da cidade de São Paulo e hoje deputado federal, Paulo Maluf (PP-SP). Segundo o delator, os dois lados se empenharam em comprar votos na Câmara. O colaborador da Justiça teria participado do episódio “mas de forma contrária, tentando alijar com propinas deputados em desfavor da emenda constitucional”. Maluf tinha alto índice de aprovação, e sonhava ocupar o Planalto – a possibilidade de FHC se reeleger era um empecilho à sua candidatura. “Maluf sabia que seu maior concorrente seria o presidente”, afirmou à força-tarefa da Lava Jato.

Para frear as pretensões do tucano, o ex-prefeito paulistano convocou deputados “para se contrapor ao Governo e também cooptar, com propina, parlamentares que estivessem se vendendo ao Governo FHC”. Segundo Corrêa, ao menos 50 colegas da Câmara foram comprados para votar a questão. Em janeiro de 1997 a matéria foi aprovada por esmagadora maioria: 336 votos a favor e 17 contra.

Em uma das passagens mais fortes de sua delação, Corrêa diz ter presenciado o banqueiro e ex-ministro Olavao Setubal, nos fundos do plenário da Câmara, dando bilhetes a parlamentares que acabavam de votar em favor da emenda, “para que estes se encaminhassem a um doleiro de Brasília e recebessem suas propinas em dólares americanos”.

À época do escândalo da compra de votos, o caso veio à tona graças a reportagem da Folha de S.Paulo, que trazia gravações de conversas entre parlamentares nos quais eles diziam ter recebido 200.000 reais para votar favoravelmente à emenda. Os dois deputados flagrados nos áudios renunciaram, e o caso foi arquivado pela Procuradoria-Geral da República – cujo titular à época, Geraldo Brindeiro, tinha o apelido de engavetador-geral da República.

Em seu livro “Diários da Presidência” FHC se referiu ao episódio, e disse que se tratou de uma “questão do Congresso”. Em nota o ex-presidente afirma que “o depoente apenas repete o que foi veiculado na época e levou à renúncia de alguns dos 4 deputados citados como responsáveis por receber propinas, isso depois de investigação na Câmara”.



Fonte: JL/ElPaís

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