sábado, 1 de outubro de 2016

ELEIÇÕES 2016 Exclusivo: ao menos 20 candidatos foram assassinados desde agosto

Levantamento do Congresso em Foco mostra quais foram os candidatos vítimas de homicídio e as circunstâncias de cada crime. Rio e Bahia lideram estatísticas, bem como uso de arma de fogo. Na quase totalidade dos casos, investigações ainda patinam; autoria e motivações são desconhecidas

As eleições de 2016 eram para ser marcadas pelas novas regras eleitorais, como a proibição das doações empresariais e o menor tempo de campanha. Mas será lembrada pela violência. Desde agosto, quando começou oficialmente a disputa, ao menos 20 candidatos a prefeito e vereador foram assassinados em todo o país, de acordo com levantamento feito pelo Congresso em Foco. Não estão incluídos nessa lista os pré-candidatos, que não tiveram tempo sequer para registrar suas candidaturas, no início do mês passado. Os crimes foram cometidos de diversas maneiras e alcançam as cinco regiões do Brasil. A maioria foi praticada por disparos de arma de fogo (confira abaixo um resumo de cada caso).
Mas também houve candidato morto por  objetos cortantes, como faca e chave de fenda. Muitos dos candidatos mortos não tinham experiência de mandato em cargos eletivos e tentavam se eleger pela primeira vez.
As motivações também divergem e não se restringem ao pano de fundo da política. Em vários casos a principal linha de investigação é de crimes atrelados a rixas, vinganças pessoais e atuação de milícias e narcotraficantes. Em comum entre eles, a dificuldade das polícias em chegar até os criminosos. Alguns dos casos ainda patinam na apuração, o que não chega a ser uma novidade em um país onde de 5% a 8% dos crimes resultam em punição dos assassinos, segundo estimativas de estudiosos do assunto.
O estado com o maior número de homicídios entre candidatos é o Rio de Janeiro, com cinco ocorrências – duas delas apenas esta semana. Também foram registrados assassinatos em outros 11 estados. Três casos ocorreram na Bahia e dois em São Paulo e no Ceará. Acre, Alagoas, Goiás, Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e Tocantins tiveram um candidato morto por atos de violência. Entre as vítimas, seis eram do PSDB e duas do PMDB, do PTB e do PRB. PCdoB, PDT, PEN, PMB, PP, PSB, PSL e PTC também perderam candidatos assassinados.
Por não haver registros das eleições passadas, não é possível afirmar se esta é a eleição mais violenta realizada no país. O próprio Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não dispõe de informações sobre a causa da morte dos mais de 100 candidatos que faleceram desde que registraram a candidatura, em agosto. O Congresso em Foco cruzou a relação dos concorrentes que morreram durante a campanha com o noticiário local. Ou seja, não está descartada a possibilidade de a relação dos assassinados ser ainda maior.
Tropas
Nesta quinta-feira, o presidente do TSE, Gilmar Mendes, cobrou da Polícia Federal que apure a motivação de assassinatos e atentados praticados contra candidatos. Ontem o candidato a prefeito de Itumbiara José Gomes da Rocha (PTB) foi morto com tiros na cabeça em uma carreta. Um policial militar que fazia a segurança dele e o atirador também morreram. O vice-governador de Goiás, José Eliton (PSDB), e outra pessoa foram baleadas.
De olho na violência na reta final da campanha, o TSE já autorizou o envio de tropas federais para 307 municípios em 14 estados. “Ainda não se tem claro qual foi motivação, mas parece estar associado a contexto ou atuação política. Mas, realmente, se trata de um episódio chocante e deplorável para todos os títulos”, disse esta manhã o presidente do tribunal, Gilmar Mendes.
O ministro admitiu que ainda não possui informações precisas sobre o total de tentativas de assassinatos contra candidatos. “Não temos dados seguros. Estamos nos preocupando, sim, com esse quadro de violência”, afirmou. Levantamento feito pelo TSE em agosto apontava para a morte de 20 pré-candidatos e candidatos no país. Destes, 11 eram do Rio de Janeiro.
Para Gilmar, parte dos crimes tem, aparentemente, motivação política. “Alguns candidatos estão associados (ao crime organizado), o que traz uma outra preocupação, que é o crime organizado participando do crime eleitoral, que é algo delicado”, declarou.
Conheça os candidatos que foram assassinados e as circunstâncias dos crimes:
Antônio Aristides de Carvalho (Tote) (PMDB)
Candidato a vereador em Esperantina (PI)
Presidente da Câmara Municipal da Esperantina, município de 37,7 mil habitantes, o candidato à reeleição foi assassinado em 28 de agosto com um tiro no peito. Segundo a Secretaria de Segurança Pública do Piauí, o vereador de 64 anos tentava apartar uma briga entre casal e uma terceira pessoa. Ao deixar a residência da mulher agredida, foi atingido pelo agressor.
Cerciran dos Santos Alves (Celso do Transporte) (PSDB)
Candidato a vereador em Guarujá (SP)
Empresário de 43 anos, o candidato foi atingido por cerca de 15 tiros em seu carro. Devido ao grau de violência, a polícia investiga se o crime foi cometido por motivação política ou acerto de contas. Celso era dono de uma empresa de lobística e de um buffet e foi diretor de sindicato e associação de transportes rodoviários autônomos na região.
Daniel Pereira da Silva (Daniel Pereira) (PSL)
Candidato a vereador em São Sebastião do Passé (BA)

O comerciante de 32 anos foi morto no dia 2 de setembro em uma barbearia no bairro dos Humildes, onde morava. São Sebastião do Passé faz parte da região metropolitana de Salvador. Segundo testemunhas, quatro homens não identificados se aproximaram da barbearia em duas motos e efetuaram os disparos contra Daniel. A polícia local suspeita de acerto de contas e, em princípio, descarta motivação política no crime.
David Silva Leandro (Professor David Leandro) (PTB)
Candidato a vereador em Teotônio Vilela (AL)
Professor da rede municipal, David tinha 29 anos e foi morto a tiros em uma rua de um do residencial Parque do Futuro III, considerado um dos bairros mais violentos de Teotônio Vilela. Segundo familiares, ele foi até o local após receber uma ligação. A polícia suspeita de acerto de contas.
Dionny de Lima Alves (Dionny da Farmácia) (PRB)
Candidato a vereador em Aragominas (TO)
Farmacêutico, de 32 anos, Dionny foi atingido por três tiros enquanto conversava com amigos em um bar na noite de 3 de setembro. O autor dos disparos fugiu em uma moto. Testemunhas contaram à polícia que a vítima e o suspeito haviam discutido momentos antes em um posto de gasolina. O suspeito havia se irritado porque o candidato chegou depois dele e abasteceu o carro primeiro.
Elivaldo Santana dos Santos (Elivaldo Santana) (PSDB)Candidato a vereador em Porto Acre (AC)
O comerciante de 36 anos foi morto a tiros em 24 de agosto. Segundo um amigo dele, o candidato foi abordado por dois homens em uma moto quando saia de casa. Os criminosos confirmaram o nome da vítima antes de efetuar os disparos e fugir. A polícia suspeita de acerto de contas.
Esmilton Periera dos Santos (Esmilton) (PRB)Candidato a vereador em Governador Nunes Freire (MA)
O vereador de 45 anos, que buscava o quinto mandato, foi atingido por cerca de 15 tiros quando chegava à sua casa na noite de 23 de agosto. A polícia prendeu, em 3 de setembro, um dos suspeitos de matar o político. A principal hipótese é crime de encomenda. A motivação, porém, ainda não foi informada. Em 2014, outro vereador do município, Paulo Lopes Sales (PT), foi morto com várias fraturas no crânio após ser espancado.
Fábio da Silva Oliveira (Fabinho) (PSDB)Candidato a vereador em Araruama (RJ)
O candidato, de 36 anos, foi morto por volta das 17h30 do dia 11 de agosto no bairro Fazendinha. Fábio chegou a ser socorrido e levado para um hospital, mas não resistiu aos ferimentos. A autoria e a motivação o crime ainda não foram informados.
José Cláudio Carvalho Borges (Cacau da Oficina) (PSDB)Candidato a vereador em Barra (BA)
Vereador e candidato à reeleição, Cacau da Oficina, de 46 anos, foi assassinado no dia 2 de setembro durante uma passeata da campanha eleitoral. Um segurança que o acompanhava também foi morto pelo atirador. O autor dos disparos fugiu no meio da multidão. Dias antes de ser morto, o vereador havia sido interrogado pela polícia sobre a origem de um veículo roubado apreendido em uma oficina de sua propriedade. Na ocasião, segundo os investigadores, ele apontou um traficante como a pessoa que lhe havia vendido o carro.
José Cláudio Nogueira (Cláudio Nogueira) (PSB)Candidato a vereador em Quixeramobim (CE)
Inspetor da Polícia Civil, 51 anos, Cláudio foi morto a tiros no município de Senador Pompeu (CE) dentro do próprio carro, no qual também estava sua esposa. Ele foi abordado por dois homens em uma motocicleta que efetuaram os disparos. A mulher não foi atingida. Nenhum objeto do casal foi roubado. A polícia suspeita de execução. Cláudio foi o 18º policial assassinado este ano no Ceará, o terceiro apenas em agosto.
José Gomes da Rocha (Zé Gomes) (PTB)Candidato a prefeito de Itumbiara (GO)
Ex-deputado federal por quatro mandatos e ex-prefeito do município por duas vezes, Zé Gomes foi executado durante uma carreata em Itumbiara nessa quarta-feira (28). O policial militar Vanilson João Pereira, que fazia a segurança do candidato, e o atirador, Gilberto Ferreira Amaral, também morreram. O vice-governador e atual secretário de Segurança Pública, José Eliton (PSDB), e o ex-diretor de Comunicação da cidade Célio Rezende foram baleados. Eles estão internados em Goiânia. A motivação do crime ainda é investigada. Gilberto, de 53 anos, era funcionário da prefeitura de Itumbiara e não tinha passagem pela polícia. Ele desceu do carro, aproximou-se do veículo que transportava o candidato, o vice-governador e outros políticos e começou a atirar. A polícia acredita que o alvo era mesmo Zé Gomes.
José Reginaldo da Silva (Nego Turmeiro) (PEN)Candidato a vereador em Santa Lúcia (SP)
O candidato, de 47 anos, foi encontrado morto dentro de seu carro. Ele foi vítima de facadas no pescoço. De acordo com a polícia, um adolescente de 16 anos e um jovem de 19 anos confessaram o crime. Os dois disseram aos policiais que decidiram matar o candidato porque ele se recusou a pagar R$ 100 que havia prometido por um programa com a dupla. O caso segue sob investigação.
José Ricardo Guimarães (Capitão Guimarães) (PTC)Candidato a vereador em Itaboraí (RJ)
Capitão reformado da Polícia Militar do Rio de Janeiro, Guimarães foi morto a tiros no último domingo (25), quando fazia campanha na comunidade da Reta Velha. O candidato, de 49 anos, estava em companhia do prefeito Helil Cardozo (PMDB), que tenta a reeleição. O prefeito, porém, não foi ferido. Ele havia entrado na residência de uma eleitora no momento do crime. Segundo testemunhas, um grupo de homens se aproximou de Guimarães perguntando se havia algum policial infiltrado no local. Guimarães tentou fugir na garupa de uma moto. Na perseguição, foi atingido nas costas. A autoria e a motivação do crime ainda são investigadas.
José Valmir de Sousa (José Valmir) (PSDB)Candidato a vereador em Aiuaba (CE)
Candidato à reeleição, o vereador de 58 anos foi assassinado no último sábado (24), quando deixava um comício no Distrito de São Nicolau, em Auiaba. Valmir foi abordado, quando se preparava para entrar em seu carro, por homens encapuzados que atiraram cinco vezes na cabeça dele. A autoria e a motivação do crime ainda são investigadas.
Júlio César Fraga Reis (Júlio Reis) (PCdoB)Candidato a vereador em Seropédica (RJ)
Terceiro sargento da Polícia Militar, Júlio era lotado na Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) São Carlos, na região central do Rio. Em 20 de agosto, ele se tornou o 13º candidato ou pré-candidato a ser executado na Baixada Fluminense no período de nove meses. O sargento, de 38 anos, deixava uma festa em companhia de um homem e uma mulher, quando foi alvo de diversos disparos. Júlio e o amigo morreram no local. Os autores do crime fugiram em uma Tucson.
Julivaldo Oliveira Andrade (Quiado) (PMB)Candidato a vereador em Mata de São João (BA)
Empreendedor individual, de 33 anos, Julivaldo foi abordado por dois homens próximo de sua residência no início da noite de 11 de agosto. Ele tentou fugir dos disparos, mas foi atingido pelas costas. Ainda não há informações sobre autoria e motivação do crime, ocorrido em Mata de São João, município da região metropolitana de Salvador.
Marcos Vieira Souza (Marco Falcon) (PP)Candidato a vereador no Rio de Janeiro (RJ)
Presidente da Escola de Samba Portela, o subtenente da Polícia Militar foi fuzilado na tarde da última segunda-feira (26). Quatro dos dez disparos de fuzil atingiram a vítima, que tinha 52 anos. De acordo com testemunhas, dois homens encapuzados e armados entraram no comitê de campanha do candidato, atiraram nele e fugiram. Outras quatro pessoas aguardavam os criminosos do lado de fora. As investigações seguem várias linhas: crime político, passional e vingança, entre outras. Em março, Falcon havia registrado na polícia que era alvo de ameaças de morte.
Marelaine dos Santos Rodrigues (Marelaine Vaz) (PSDB)
Candidata a vereador em Nova Prata (RS)
A técnica em enfermagem de 32 anos foi morta a golpes de chave de fenda pelo marido, na madrugada de 12 de agosto. Por volta das 3h, Antonio César Henrique Vaz, de 39 anos, ligou para a polícia confessando ter matado a esposa. Ao chegarem à residência do casal, os policiais não encontraram Antonio César. Pouco depois ele foi localizado por um irmão: matou-se enforcado em uma árvore perto de sua casa. Marelaine foi atingida por mais de dez golpes na cabeça e no pescoço.
Osvaldo da Costa Silva (Ratinho) (PDT)Candidato a vereador em Nilópolis (RJ)
O candidato foi atingido por nove disparos quando saía de casa por volta das 8h do dia 18 de agosto. Câmeras de captação da região mostram que os criminosos fugiram em um Honda Civic, mas não há imagem do instante do crime. A polícia suspeita de crime político, mas não descarta outras hipóteses. O candidato já havia sido vice-prefeito e candidato a prefeito, além de secretário municipal de Meio Ambiente em Nilópolis.
Valdeci Batista de Oliveira (Valdeci) (PMDB)Candidato a vereador em Antônio Martins (RN)
Candidato à reeleição, Valdeci de Nozin, de 58 anos, foi morto junto com o filho Francisco Assis Batista no dia 16 de agosto. Uma dupla se aproximou do veículo onde os dois estavam e começaram a atirar. Baleados, pai e filho ainda tentaram fugir, mas o veículo caiu em uma ribanceira. Os policiais acreditam que a execução tenha sido um acerto de contas. Eles voltavam da cidade de Alexandria, onde Francisco prestou depoimento à polícia. Ele era suspeito de ter matado, dois dias antes, uma pessoa que havia trocado tiros com um irmão dele. O banho de sangue continua. Na última terça (27), o irmão gêmeo de Valdeci foi executado em Alexandria.
Fonte: JL/Congresso em Foco

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