quarta-feira, 22 de março de 2017

ARTIGO O machismo na Reforma da Previdência e na lei da Terceirização

A igualdade de deveres só pode vir quando se atinge a igualdade de direitos


por Caroline Apple, jornalista em graduanda em Ciência Política 
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Brasil caminha para um futuro sombrio e repleto de mulheres idosas pobres, dependentes e doentes. A reforma da Previdência e a lei da Terceirização resultarão, se aprovadas, numa cadeia de acontecimentos que nos levará para o buraco da informalidade e das carências geradas pela falta de um mecanismo constitucional de distribuição de renda justo que contemple boa parte da sociedade. E as mulheres serão as mais afetadas.
O primeiro ponto que salta aos olhos é a equiparação da idade entre homens e mulheres para receber o benefício da aposentadoria. A jornada dupla das mulheres é completamente descartada pelos governantes, com alegações como "mulher vive mais" e até mesmo a má-fé proferida por Rodrigo Maia, que transviou a luta feminista por direitos iguais e afirmou que o "equilíbrio" da idade atende ao desejo dos grupos que lutam pela igualdade de gênero. A igualdade de deveres só pode vir quando se atinge a igualdade de direitos. Não é o caso.
O trabalho doméstico tem historicamente deixado as mulheres para trás na sociedade. Enquanto ela se ocupa com a criação dos filhos e a limpeza da casa, os homens seguem com tempo de sobra para se desenvolverem como humanos. A mulher trabalha, em média, 35h30 fora de casa e mais 21h12 minutos dentro de casa, por semana. O homem, por sua vez, trabalha 41h36 minutos fora de casa (número que caiu nos últimos anos, quando chegou a ser 44h semanais) e menos que a metade dentro de casa. Lembrando que o trabalho doméstico não traz ganho intelectual nenhum. A cena clássica da mulher limpando a casa enquanto o homem lê jornal ainda se repete em pleno século 21.
Qual desses dois indivíduos, por fim, estaria mais preparado para encarar o mercado de trabalho? Caso a mulher consiga esse feito, ela dispensou muito mais empenho, dedicação e tempo do que os homens. E é atrás dessa sobrecarga na pele de nobreza e de "força feminina" que se encontra um dos maiores mecanismos da desigualdade de gênero, que geram outras questões maléficas às mulheres, como as doenças psíquicas. O gênero feminino está 40% mais vulnerável do que o masculino a desenvolver doenças mentais. E, neste cenário, o motivo passa longe de ser biológico. O excesso de estresse, cansaço, pressão social e familiar nos cuidados com os filhos, cobrança estética e manutenção de um casamento por dependência financeira são fatores que levam à mulher a "pifar" mais rápido do que o homem. Podemos até ter uma expectativa de vida de 77 anos, mas a qualidade desta vida pode e deve ser questionada.
Quando a mulher consegue chegar no mercado de trabalho ela se depara com salários 30% menores do que os dos homens em todas as faixas de idade, níveis de instrução, tipo de emprego ou de empresa. Isso não é um dado criado por esquedopatas comunistas. Está lá, no site Observatório de Gênero, do governo brasileiro, com os índices levantados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento. Quem usa como justificativa o ganho inferior das mulheres por elas trabalharem 6h horas a menos, em média, por semana do que os homens, já pode voltar duas casas na escala da evolução da espécie.
Essas seis horas são "compensadas" com juros e correções nos salários baixos, cargos precários, trabalhos domésticos não remunerados e cuidados, muitas vezes, exclusivos com os filhos. Cerca de 5 milhões de crianças sequer têm o nome do pai no registro. Mulheres simplesmente não conseguem se concentrar em suas carreiras porque os homens têm sido levianos com suas responsabilidades dentro de casa, que vai desde a distribuição do trabalho doméstico até a criação dos filhos. Quando ela, enfim, consegue dar conta do recado, ganha menos.
Aí vem a lei da Terceirização para piorar o cenário. Trabalhos terceirizados pagam quase 25% a menos que os funcionários contratados diretamente pelas empresas e trabalham 4h a mais. Pronto, a fórmula perfeita para "colocar a mulher no lugar dela", que está anos luz de ser onde ela quiser para boa parte da população e, principalmente, para boa parte dos governantes, que deixam claro em suas falas que o lugar da mulher é no supermercado comparando preço. Ou representantes de movimentos de direita que se diziam não partidários desqualificados e desinformados que reduzem esse cenário repressor criado pelo patriarcado ao grande sentimento maternal natural das mulheres, que largam a mão de tudo ou trabalham menos fora de casa voluntariamente para cuidar dos filhos. Não confundam necessidade com satisfação pessoal.
No futuro, não haverá de onde tirar renda, a maioria dos postos de trabalho exige esforço físico, principalmente nas camadas mais pobres. Fácil falar que é delicioso se manter ativo (saiba lá o que isso significa para cada um) sentado atrás de uma mesa. Quero ver fazer faxina aos 65 anos, quero ver misturar uma massa, pegar peso como garçom. Trabalhar depois dos 60 anos deveria ser uma opção e não uma obrigação por sobrevivência.
Num país como o Brasil, com a desigualdade de gênero e de classe gritante, a chance de criarmos um exército de idosos dependentes e abandonados é imensa. E esse cenário contempla qualquer trabalhador que só tem sua mão de obra como forma de ganhar dinheiro. Quem viaja, come bem e tem uma vida confortável hoje aos 30, em 35 anos pode estar morrendo na fila de um hospital público ou tendo que se contentar com o que ganha, perdendo toda a autonomia que tem sobre o que come, o que veste e até o que sente em relação à vida. A previsão é que, em 35 anos, 1 em cada 3 pessoas seja idosa. Então, olha o tamanho do problema.
As mulheres seguirão como as maiores vítimas dessas medidas que Michel Temer e seus aliados querem aprovar. Já temos a mulher trabalhando mais que o dobro do que os homens dentro de casa, ganhando menos (com grandes chances desse valor cair ainda mais com a lei da Terceirização), sustentando sozinha seus lares e seus filhos, correndo o risco de ter que trabalhar mais para se aposentar e ainda ter que pensar em guardar dinheiro para tentar ter uma aposentadoria que cubra, ao menos, suas necessidades básicas. Lembrando da vulnerabilidade mental das mulheres que vivem essas condições, que ainda terão que desembolsar R$ 880, em média, num plano de saúde (valor esse cobrado por uma famosa operadora), afinal, a precarização da saúde é um fato. Nem no atual cenário isso tem sido possível, uma vez que, em 2016, o governo pagou em média de aposentadoria R$ 1.283,93. Imagina então depois da reforma? Querem que voltemos caladas para a condição de subalterna e para o estado de servidão do homem, tirando de nós as condições de sermos seres humanos autônomos. Tudo isso de forma constitucional.
Fonte: JL

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