terça-feira, 5 de setembro de 2017

Enquanto o país afunda, o Piauí resiste, aponta Wellington Dias

Para o governador, essa reação na contracorrente da tendência nacional se explica por um dado peculiar do Estado, onde a presença do pequeno empresário é muito maior do que em outras regiões do país

Estamos numa boa situação mas o Piauí não é uma ilha”, afirma o governador Wellington Dias, do PT, em entrevista exclusiva ao 247, no primeiro dia Caravana de Lula no Estado. Enquanto o Brasil de Temer-Meirelles afunda em depressão econômica e derrocada social, o Piauí consegue manter a economia relativamente aquecida, alimentar obras de infraestrutura e proteger a qualidade de áreas essenciais do serviço público, a começar pela educação. “Mas isso não é para sempre. Se a política econômica do pais não mudar, a crise vai explodir aqui”, adverte o governador.
Basta um número para se compreender a relação direta entre a economia do Piauí e o desempenho do governo federal: de cada 1 real que o Estado injeta na economia, 50 centavos têm origem em recursos partilhados com a União.
Numa conjuntura onde a tesoura é o principal instrumento de trabalho da equipe econômica de Brasília, o desempenho do Estado surpreende. Num país onde a economia começou a esfriar já no governo Dilma e encontra-se em depressão depois de 2016, o curso natural das águas federais levaria a paralisia e ao empobrecimento. Mas o Piauí resiste.
O Estado cresceu 3,7% no penúltimo trimestre, 3% no último. O desemprego está muito alto, 9%, mas não atingiu os 12% da escala nacional. Calcula-se que os cortes do governo federal implicaram na eliminação direta de 70 000 empregos, sem falar numa porção incalculável de postos indiretos. De acordo com cálculos oficiais, as perdas foram compensadas com margem positiva por novos investimentos, em particular do agronegócio, fruticultura, comércio e energia eólica.
Para o governador, essa reação na contracorrente da tendência nacional se explica por um dado peculiar do Estado, onde a presença do pequeno empresário é muito maior do que em outras regiões do país: das 171 328 empresas ativas no Piauí, 94% se definem como microempresas. “Às vezes a realidade confirma ideias que pareciam só existir no plano da teoria”, diz. “A resistência do Piauí se deve, em grande medida, a coragem dos pequenos empresários, que demonstram ter menos medo do risco do que os grandes e médios. Eles não desistem de seu negócio com facilidade, não se aposentam nem mudam de ramo no primeiro susto. Isso ajuda a entender o comportamento da nossa economia, onde o pequeno empresário tem um peso tão importante e até se mostra mais solidário com o destino de seus empregados”.
O Piauí é um Estado onde os pequenos agricultores são uma força real e ouvida em palácio. Ao levar Lula para vistar uma cooperativa de produtores de mel, como mostra a foto acima, Washington prestava tributo a Casa Apis, uma articulação de cinco cooperativas presente em 40 municípios, agrupando 1200 famílias.Em 2016, eles produziram 970 toneladas de mel, com um faturamento superior a R$ 10 milhões. 
No esforço para mobilizar esta fatia do empresariado, Wellington criou 23 câmaras setoriais que debatem medidas de estímulo a áreas que envolvem um cardápio variado de interesses. Desde um artesanato rico e tradicional, opções de culinária com vários graus de sofisticação, sem falar em iniciativas para recuperar plantios perdidos pela seca. Sob inspiração direta de uma Câmara Setorial, 42 produtores de alho começam a recuperar uma cultura que fez a fortuna de várias gerações de piauienses, até que foi devastada por um vírus que se instalou em sua célula e ali permaneceu por décadas. “Graças a um trabalho nos laboratórios da Embrapa (Empresas Brasileira de Agropecuária), a praga foi eliminada,” afirma o agrônomo José Airton de Carvalho Dantas, membro da Comissão. “Agora se pode pensar num investimento acessível, que poderá beneficiar milhares de famílias”.
Filha de uma empregada doméstica que antes da chegada das cisternas e demais programas de apoio a agricultura familiar chegou a participar de saques para enfrentar a seca e alimentar os filhos, Maria Kazé, do Movimento dos Pequenos Agricultores, é interlocutora para negociações importantes junto ao governo. Mostrou sua oratória poderosa no comício que marcou a chegada da caravana de Lula ao Piauí.
Atividade que levou R$ 12 bilhões ao Estado, a energia eólica reúne interesses de grandes investidores que trouxeram R$ 12 bilhões ao Estado e pequenos agricultores do semi-árido. Eles alugam por R$ 1 mil por mês cada área onde são instalados cada torre com eletrogeradores. As hélices chegaram a paisagem do Piauí que, hoje, abriga 9 entre entre as 10 mais produtivas do país.  As realizações não se limitam a isso, porem.
O número de cidades interligadas por asfalto saltou de 66 para 218. Os pontos de luz eram 6600. Chegaram a 1,3 milhão.  Enquanto os investimentos no Ensino Técnico têm sido reduzidos no país inteiro pelo governo federal, no Piauí eles foram ampliados. A rede de ensino técnico já atinge todos os 224 municípios. O número de municípios com instituições de ensino superior era de 80. Saltou para 180 e deve chegar aos 224 em 2018. Num teste complicado para toda administração, os reajustes regulamentares do professorado, previstos por lei federal, têm sido pagos na íntegra, para todas as faixas salariais, ainda que em alguns casos o reajuste tenha sido parcelado.
“Não faltou nada,” afirma a professora Fátima Rocha, 54 anos, que na manhã de sábonado foi as ruas de Picos para defender a herança de Lula e aproveitou para reconhecer méritos no governador. “Ganhamos 13% num ano e 7% no seguinte. Ao contrário do que tem ocorrido em estados muito mais ricos, nenhum salário do funcionalismo atrasou”, disse ela, a poucos metros de um palanque no qual o próprio Lula faria elogios rasgados a Wellington. Disse que os cidadãos do Piauí deveriam se considerar pessoas de sorte por contar com uma autoridade como ele à frente do Estado. Em tom bem humorado, disse em palanque que Wellington é capaz de denunciar o governo “golpista” na porta do Planalto e depois sentar-se no gabinete de Michel Temer para pedir apoio a projetos necessários de governo.
Fátima diz que “ele é o Lula do Piauí. Sabe quando é a hora de brigar e quando é hora de dialogar.”
Falando sobre o estado geral do Estado a professora evita um tom de ufanismo. Mas se diverte cum uma lembrança: “estamos numa fase tão boa que até a miss Brasil é do Piauí,” diz, bem humorada.
Dirigente histórico de um partido que fez do combate a reforma da previdência uma questão de honra, Wellington lembra o efeito perverso que o simples anuncio de um projeto de mudanças no sistema de aposentadoria provocou nas contas do Estado. ”Tivemos uma corrida de funcionários para se aposentar de qualquer maneira, temendo perdas e prejuízos”, diz. Pelas contas do governo, antes de Michel Temer anunciar a reforma da Previdência, o Estado do Piauí tinha 52 000 funcionários ativos e 28 000 aposentados. Agora, são 39 000 ativos e 41 aposentados. A diferença se refere aqueles que 13 000 que mudaram de lugar e correram para se aposentar. “Pela primeira vez na história, o número de aposentados ultrapassou o de ativos”, diz, antecipando problemas que terá pela frente.
Wellington Dias está convencido que o governo Temer “tem razão em preocupar-se com o déficit nas contas do governo. A situação está muito ruim mesmo. O problema é saber o que pretende fazer com isso. Se resolvesse investir na produção e na retomada do crescimento, daria um novo ânimo ao país. Mas, se resolver cortar os gastos e reduzir os investimentos, será um desastre”, acrescenta, deixando claro o que não tem a menor esperança de que o governo venha fazer a opção adequada.

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