sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Homem fala de preconceito e superação após 30 anos com HIV: 'a vida não acabou'

Valdeci convive com o vírus HIV há 30 anos e conta episódios de preconceito dentro e fora de casa. Ele descobriu que era portador do vírus somente 8 anos após sentir os primeiros sinais da Aids.


Por Andrê Nascimento e Lucas Marreiros, G1 PI
Valdeci Palhano destaca que é possível conviver com HIV e ressalta a necessidade de prevenção



No dia 1º de dezembro, institui-se o Dia Mundial de Luta Contra a Aids. Na data, pessoas como o técnico em contabilidade Valdeci dos Santos Palhano, de 54 anos, comemoram a vitória sobre os efeitos da doença causada pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV). Ele descobriu ser portador em 1994, depois de oito anos de problemas de saúde constantes devido à Aids, que o levaram a pesar apenas 35 kg e o impediram de trabalhar.


Os problemas de saúde constantes começaram por volta de 1986, quando ele tinha 23 anos e logo o impediram de trabalhar. Na época, Valdeci administrava um restaurante em São Paulo. “Mas a doença acabou com tudo”, contou ao G1. O diagnóstico veio apenas em 1994, aos 39 anos, quando pesava apenas 35 kg.


Debilitado, voltou para sua cidade natal, Bacabal, no Maranhão. Lá teve de enfrentar a rejeição da família e da cidade. "Fui culpado pela separação dos meus pais e meus irmãos deixaram de falar comigo. Clientes do bar que minha mãe administrava pararam de ir, por medo de sentar nas cadeiras e contrair a doença". Ele conta ainda que quando foi embora da cidade, em busca de tratamento em Teresina, o banheiro do bar foi destruído para construção de um novo, porque ele o havia utilizado.


Valdeci partiu de Bacabal e nunca mais voltou. Veio iniciar seu tratamento em Teresina. “A ficha caiu quando fiquei sem amigos, sem família, e tive que procurar um mundo novo em Teresina, onde não conhecia ninguém. Foi muito difícil”, disse.
Valdeci dos Santos Palhano só foi diagnosticado aos 39 anos (Foto: Andrê Nascimento / G1)



Na capital do Piauí, Valdeci encontrou solidariedade com Graça Cordeiro, coordenadora do Lar da Esperança, instituição que ampara portadores do vírus HIV em Teresina. Valdeci conta que quando soube da existência da casa, duvidou que fosse verdade. Passou a frequentar o lugar desde a década de 90, e se tornou um amigo da coordenadora. Hoje, ele trabalha na instituição e tem as pessoas que frequentam o lugar como uma família.


Em Teresina, também viveu o pior episódio de preconceito: foi fotografado quando estava na piscina de um hotel da capital e teve a foto foi publicada em um jornal. O caso aconteceu em 1998, mas ele ainda lembra da legenda da foto. “Mandavam que a dona Graça fizesse uma piscina no topo do prédio para eu tomar banho, porque ali havia crianças”.
Valdeci viveu episódios de preconceito (Foto: Andrê Nascimento / G1)


Por conta do preconceito, muitas pessoas acreditam em mitos sobre a transmissão do vírus, mas o infectologista Thiago Vasconcelos explica que atividades do cotidiano não possibilitam o contágio. “Abraço, beijo, usar os mesmos talheres, pelo suor, nada disso transmite. A única forma de passar o vírus é com sexo desprotegido e o contato sanguíneo”, diz o médico.


Apesar das dificuldades impostas pela doença e pelos preonceitos da sociedade, Valdeci vive há mais de 30 anos com HIV, tem sua própria casa, onde mora com um companheiro, e é uma pessoa saudável, que segue todas as recomendações médicas.




“Ainda tenho contato com minha mãe, com amigos de Bacabal, ex-professores. Perguntam sobre mim para minha mãe, que responde: ‘Ele tá trabalhando, tem a casinha dele’. As pessoas pensam que eu fiquei bom”, conta sorrindo.




Ao longo do seu percurso, Valdeci deu palestras sobre sua vida e, hoje, participa de grupos de apoio a pessoas portadoras do HIV, provando que é possível seguir adiante depois do diagnóstico.




Dia Mundial de Luta contra a Aids




Criado em 1987, o Dia Mundial de Luta contra a Aids existe para alertar a humanidade para um dos maiores problemas de saúde pública, que já matou mais de 35 milhões de pessoas, 1 milhão delas somente em 2016.
Preservativos são a melhor forma de se previnir contra o HIV (Foto: Mariane Rossi / G1)


Segundo dados da Secretaria de Estado da Saúde, de 2007 a 2016, foram registrados 4.162 casos de AIDS no Piauí, sendo 67,9% homens. Nos últimos cinco anos, a faixa etária mais acometida é a de 20 a 34 anos, representando 48% dos casos.


Conforme o Ministério da Saúde, a principal forma de se previnir do HIV, considerando que a transmissão em larga escala é sexual, é o uso de preservativo. Outro fator importante para a queda no número de transmissões é a oferta de testes para que as pessoas contaminadas pelo HIV saibam da sua condição e possam iniciar o tratamento.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...