quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

POLÍTICA Odorico Paraguaçu completa 45 anos e segue atual na política brasileira

Frases do personagem de Dias Gomes se mantêm vivas em discursos dos políticos de hoje

 
Odorico Paraguaçu nunca esteve tão moderno. O coronel que alinhava terno branco e chapéu panamá no horário nobre da televisão ficou "pratrasmente", diria o personagem de Dias Gomes. Mas sua essência resistiu ao tempo — 45 anos depois da estreia de "O Bem-Amado" na TV Globo, completados hoje, o prefeito de Sucupira parece representar um arquétipo da classe política brasileira que ainda sobrevive no imaginário coletivo, em tempos de recorrentes denúncias de corrupção e discursos histriônicos nos púlpitos do Congresso Nacional.
 
Simpático, porém perverso, Odorico Paraguaçu exalava ambiguidades. Subiu no coreto da fictícia Sucupira para prometer um cemitério à cidade, encarnando a figura do "pai do povo", mas tramou a morte de conterrâneos para inaugurar sua principal promessa. Pediu ambulâncias ao governo federal e desejou "umas epidemias" para dar uso aos veículos. Misturava os interesses públicos com seus planos privados: "Além das ambulâncias, precisamos ter umas 'confabulâncias'", diz o personagem, interpretado pelo ator Paulo Gracindo, em uma das cenas.

— Odorico é uma alegoria. Ele representa um modo de ser político — diz Igor Sacramento, professor de Comunicação da UFRJ e autor de estudos sobre "O Bem-Amado". — A novela era uma crítica à figura do coronel, do coronelismo e de uma política que se revela muito atrasada.
Icônica por natureza, a novela lançada em 1973 teve a marca da inovação tecnológica ao ser a primeira produção a cores da televisão brasileira e pelo desafio à ditadura, por exibir um retrato crítico da política nacional. Foi alvo de censura e, mesmo assim, caiu nas graças do país ao satirizar as tramas de um político sem escrúpulos. Dias Gomes chegou a revelar medo de Odorico se tornar tão querido e anestesiar o tom crítico da obra.
— Lamentavelmente, o que nós temos de lá para cá é uma disseminação desses Odoricos (na política) — avalia o historiador Daniel Aarão Reis. — Apesar dos horrores da repressão e de ter aprofundado as desigualdades no país, a ditadura desempenhou um papel modernizante, e os Odoricos, que representavam o setor arcaizante, sobreviveram, embora subordinados, e mantiveram certa importância nas margens.
A redemocratização não alterou o perfil do político retratado em "O Bem-Amado". Odorico simbolizava a troca de favores e uso deturpado do bem público, aspectos que, segundo Aarão Reis, permanecem em alguns atores políticos:
— Dois partidos emergiram comprometidos com a modernização: de um lado o PSDB, de outro o PT. Mas, em vez de estruturarem uma plataforma comum, eles se polarizaram. E cada um preferiu se aliar com as forças do atraso. Eles se aliaram a partidos tipo Odorico Paraguaçu.
Fonte: JL/OGlobo

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