sexta-feira, 16 de março de 2018

Lula: 'Se for preso, falarei pela voz de vocês e andarei pelas pernas de vocês'

Em ato no Fórum Social Mundial, ex-presidente diz se sentir em débito pelo que não realizou, lamenta a "barbaridade" com Marielle Franco e faz desagravo a "canalhices" feitas com Jaques Wagner

A Assembleia Mundial em Defesa das Democracias, na noite desta quinta-feira (15), em Salvador, teve como marcas as homenagens à vereadora carioca Marielle Franco e manifestações de apoio ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, último a discursar no evento, parte integrante do Fórum Social Mundial (FSM). Entre as falas pró-Lula, as do ex-presidente de Honduras Manuel Zelaya, deposto por um golpe em 2009, e do deputado francês Éric Coquerel.

O próprio Lula fez menção ao assassinato da parlamentar carioca, que chamou de "barbaridade", mas acrescentou que isso não deterá a luta contra o fascismo. "Hoje as ideias de Marielle tomaram o Brasil inteiro", afirmou.

O ex-presidente também voltou a elogiar as pré-candidaturas de Guilherme Boulos (Psol) e de Manuela d´Ávila (PCdoB), outra participante da assembleia no estádio de Pituaçu. "Sigo com muito orgulho que esse país tenha dois jovens como ela e com o Guilherme Boulos disputando a eleição", disse Lula. "Se precisar, eu carrego a sua filha", acrescentou, dirigindo-se à deputada estadual gaúcha, que estava com Laura no colo.

Ele fez referências à possibilidade de prisão devido à condenação em segunda instância. "Eles podem fazer qualquer coisa conosco, mas as nossas ideias já estão no ar", afirmou. "Querem me prender? Eu falarei pela voz de vocês. Eu andarei pela perna de vocês. Eu pensarei pela cabeça de vocês", acrescentou o ex-presidente. "Ainda tenho de prestar contas ao povo brasileiro", disse o petista, referindo-se a projetos e realizações que não executou durante seus dois mandatos.

Ao chegar em Salvador, entre outras atividades, Lula passou por um ritual de proteção indígena. Durante o evento com lideranças políticas da região, disse que os opositores "não querem uma América Latina desenvolvida", uma das razões que explicam o momento atual. "Por isso que cassaram a Dilma, o Lugo. Por isso que perseguem a Cristina (Kirchner). Porque nós queremos criar uma nação com soberania. Eles acham que abusamos muito da democracia no nosso continente. Não foi pouca coisa o que fizemos na América Latina. Não foi pouca coisa a gente criar a Unasul, a Celac, descobrir o pré-sal... Dizer que o petróleo era do povo brasileiro."

Contando estar com a garganta "cansada" e prestes a viajar em caravana pela região Sul, o ex-presidente afirmou que uma de suas motivações para participar do FSM foi a "canalhice" contra o ex-governador baiano Jaques Wagner, "quando invadiram a casa dele", referência a buscas da Polícia Federal.

Um pouco antes, o atual governador, Rui Costa, e a presidenta nacional do PT, a senadora Gleisi Hoffman (PR), criticaram a tentativa de excluir Lula das eleições deste ano. Costa afirmou que se o ex-presidente estivesse com 1% das intenções de voto, "ninguém tocaria no seu nome, nem a TV, nem o Judiciário, nem o Ministério Público". Outra a discursar em apoio ao ex-presidente foi a senadora Lídice da Mata, do PSB baiano.

Lula falou sobre a intervenção militar no Rio de Janeiro, que segundo ele não resolverá o problema naquele estado. "Tem de ter emprego, saúde, salário, cultura", afirmou o ex-presidente, para quem "é possível reconstruir a democracia" no Brasil, que não pode ser "uma nação de vira-latas".

O deputado francês Éric Coquerel – membro do Parti de Gauche(Partido de Esquerda, liderado pelo socialista Jean-Luc Mélenchon) – disse que este é um "período crucial dos dois lados do Atlântico, caracterizado por nova ofensiva do neoliberalismo". Segundo ele, a América Latina passa por golpes que visam a acabar com as recentes "revoluções cidadãs" no continente. No Brasil, por exemplo, estaria em curso "um golpe jurídico com apoio da publicidade midiática".

Ele se juntou às manifestações de solidariedade pela morte de Marielle. "Mesmo na França, essa emoção está sendo compartilhada. Racistas, fascistas, não passarão", exclamou.

"A América Latina está vivendo um momento muito difícil em nossa história. Temos de saber que são os nossos inimigos", disse o ex-presidente Zelaya. "Aqui no Brasil há um amigo que caminhou com o povo e é amigo do povo, Lula", acrescentou o hondurenho, citando apoio do brasileiro contra o golpe em seu país.
Luto em luta

Manuela d´Ávila também falou sobre o crime no Rio de Janeiro. "A noite de hoje é de reflexão. E devemos continuar fazendo aquilo que a Marielle fez durante a sua vida, lutando e denunciando os arbítrios. Devemos transformar o luta em verbo, o luto em luta, em democracia", afirmou. "Hoje é um ato para reafirmar que o nosso lado da história é o que acredita que as saídas para a crise passam pela democracia, passam pela garantia da inclusão de mulheres negras no crescimento do país, não na exclusão delas."

A pré-candidata pelo PCdoB lembrou da primeira edição do FSM, em sua cidade natal, Porto Alegre, em 2001. "Há 17 anos nós organizávamos um acampamento intercontinental da juventude. Acreditávamos que estávamos construindo um novo mundo", afirmou, destacando uma década de avanços no Brasil, a partir do governo Lula. "Trabalhamos e lutamos todos os dias para que o Brasil e o nosso continente voltem a respirar os ares da democracia, para que o país tenha eleições livres, que o futuro do país volte para as nossas mãos: resistindo e lutando", disse a deputada.


A cantora Ana Cañas homenageou a vereadora carioca, interpretando Tigresa, de Caetano Veloso. Modificou alguns versos e no final cantou "Como é bom poder cantar para Marielle".

Representante das comunidades tradicionais de terreiro, Makota Celinha lembrou de "todas as Marielles que todos os dias morrem nas ruas do nosso país" e de "todos os Andersons", referência ao motorista Anderson Gomes, que acompanhava a vereadora e também foi morto ontem (14) no Rio. "São milhares de jovens, de mulheres, de negras e negros assassinados pelo racismo, pela intolerância, por um país que não reconhece a pluralidade de sua formação."

Ela falou ainda do direito à liberdade religiosa no Brasil. "Nós não queremos um Estado que reze, mas que nos permita rezar. E que permita àqueles que não querem também o direito de não rezar."
Fonte: JL/RBA

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